História da Itália PDF Imprimir E-mail
 

Um pouco da história da Itália

 

ImageA Itália é um país com mais de trinta séculos de história. Foi de fato, sede de grandes civilizações que influíram profundamente na evolução de toda a cultura ocidental. Berço da civilização etrusca e sede de importantes centros históricos e culturais da civilização grega, foi o centro do Império Romano que, por centenas de anos, dominou o mundo ocidental.

A queda do Império Romano (476 DC) significou o fim de uma organização política, mas não o de uma civilização. Os invasores, freqüentemente primitivos como os povos provenientes do norte da Europa, acabaram por ser diretamente influenciados pela cultura romana, claramente superior na época.

Na história do país, sucederam-se divisões e reunificações. Carlos Magno, rei dos Francos, coroado imperador no ano de 800, reconduziu sob o poder de Roma quase todas as províncias européias do antigo império. Teve-se assim a restauração da idéia imperial, associada à religião cristã, com a criação do Sacro Império Romano, cujos limites se estendiam dos Pirineus ao Elba e ao Danúbio, do mar do Norte ao mar Adriático.

Com Carlos Magno e os seus sucessores, surgiu na Europa uma nova ordem política e social: o feudalismo, assentado na subdivisão do Império em várias partes. Em todas as suas graduações, a nobreza feudal constituía uma classe privilegiada, dotada de terra e de bens, permeada por ideais guerreiros, fiel às instituições militares, completamente separada da massa da população servil e explorada. As cidades, ao contrário, embora escassamente povoadas, gozavam de certo bem-estar e de relativa prosperidade por causa da possibilidade de trocas comerciais e pela presença de pequenas oficinas locais, de caráter artesanal. Lançavam-se assim as bases para o desenvolvimento da autonomia das cidades, que no século XII se realizaram completamente com a criação das comunas, um ordenamento que se desenvolveu, sobretudo, na Itália setentrional e central, enquanto que na meridional este processo foi detido pelas conquistas normanda e sueva e pelas monarquias que aí se sucederam.

Nos séculos XIV e XV as comunas transformaram-se em Senhorias para salvar-se dos perigos externos e das lutas civis internas. A um "Senhor", de fato, era confiada a direção de assuntos públicos, com plenos poderes. As famílias mais célebres que se sucederam no poder foram os Visconti e os Sforza em Milão, os Médici em Florença, enquanto começava a afirmar-se uma família, a dos Savóias, que teria grande influência sobre os destinos da Itália nos séculos seguintes.

Outro fato importante marcou a história deste período. Em 1453, a queda do Império Romano do Oriente e a conquista, pelos turcos, de grande parte da bacia do Mediterrâneo, impeliram os navegadores ao encontro de outras rotas para alcançar o extremo Oriente, fonte de aprovisionamento dos prósperos mercados europeus. Na busca de um novo caminho para chegar à Índia, em 1492, Cristóvão Colombo descobriu a América, a brindo nova e importante página na história do mundo.

Na Itália, as lutas internas pela sucessão haviam, entretanto, favorecido o advento de outras dominações estrangeiras.

Outra virada será conseqüência da revolução francesa, cujos ideais, dos quais os italianos haviam sido espectadores e participes, lançaram suas sementes entre o povo. Dividida em sete Estados após o congresso de Viena (1815), conseqüência da derrota de Napoleão, a Itália começou o seu processo de reunificação que demandaria 50 anos de ásperas lutas. Os protagonistas desta batalha pela unificação foram Giuseppe Mazzini e Giuseppe Garibaldi, portadores de idéias republicanas e a casa dos Savóia, com o primeiro ministro Camilo Benso de Cavour. Em 1870 foi finalmente constituído o reino da Itália, e Roma sua capital.

O processo de unificação somente estaria concluído com a Primeira Guerra mundial que garantiu à Itália a anexação das regiões do Trentino e de Friuli e da cidade de Trieste.

Para livrar-se definitivamente da pressão exercida sobre suas fronteiras norte-orientais, pelo império Austro-Húngaro, a Itália teve porém de pagar um alto preço, constituído por muitas vidas humanas, e por uma situação econômica desastrosa. Desvalorização da moeda, inflação, contradições políticas, econômicas e sociais favoreceram o advento ao poder do Partido Facista, fundado e dirigido por Benito Mussolini. Gradualmente todas as liberdades foram reduzidas ou suprimidas. O país foi primeiramente envolvido numa absurda política colonialista, pela conquista da Etiópia, e depois na guerra ao lado da Alemanha nazista.

Despreparada, também militarmente, para um conflito de tais proporções, a Itália viveu o drama da luta fraticida: de um lado aqueles que haviam aderido ao ideal fascista e do outro os antifascistas. Às vítimas deste confronto somaram-se as da guerra contra outras nações.

Obrigado a enviar suas tropas mal armadas e frentes muitos distantes, sem uma indústria bélica moderna e sem matérias-primas, dividido e destruído, o país não podia resistir por muito tempo à maciça ofensiva do bloco anglo-russo-americano. As derrotas na África e na Rússia tornaram definitivo o desligamento do povo italiano do regime fascista; difundia-se cada vez mais a convicção de que a única saída para a Itália era a denúncia do acordo com a Alemanha nazista, feito por Mussulini, e a reconciliação com as potências ocidentais.

Em plena II Guerra Mundial, com o país destruído e dividido, a guinada foi traumática: a Itália encontrou-se com parte de suas terras ocupadas por ex-aliados (os alemães) que se haviam transformado em inimigos e por ex-inimigos que se haviam tornado aliados. O seu território tornou-se um campo de batalha sangrento e violento. Neste período foi importante a ação do movimento partisão da "Resistência" que, ao lado de tropas aliadas, contribuiu à libertação, isto é, a livrar a Itália das forças nazistas. Em abril de 1945, finalmente, os canhões emudeceram. A Alemanha nazista estava derrotada. O fascismo debelado e seus principais expoentes justiçados.

A Itália saiu desta infeliz experiência com um balanço muito grave: um país dilacerado por profundas destruições e divisões, com seu território reduzido, obrigado a fazer concessões aos países limitrofes e a renunciar às colônias africanas (Líbia, Somália e Etiópia).

Um ano depois, o encaminhamento concreto da reconstrução era sancionado por um plebiscito que determinava o fim da Monarquia e a introdução da República. Com a convocação da Constituinte, o país entrava decididamente no caminho da democracia plena que, baseada em uma história e em uma cultura consolidada por séculos de experiência, tornou-a uma das nações mais modernas e avançadas.

 

 

Detalhes da história da Itália

 

 

A pré-história da península itálica se caracteriza por invasões de povos do norte. A distribuição desigual dessas vagas invasoras deu lugar a diferentes culturas regionais. As civilizações de Molfetta, Stentinello e Remedello apareceram no período neolítico; logo a seguir, a Itália entrou na proto-história, com a civilização das terramaras, no segundo milênio a.C., entre a idade do bronze e a do ferro, e cujo nome deriva do tipo de povoamento -- estações terrestres construídas sobre estacas, em zonas de lagos, com plataformas e cabanas de madeira -- que se estabeleceu na planície norte e se prolongou a sudeste, na costa oriental. Esses povos falavam dialetos indo-europeus, cremavam os mortos, cultivavam a cevada e o trigo, trabalhavam o metal e, ao que tudo indica, já conheciam o vinho.

A partir de aproximadamente 1100 a.C., a introdução do ferro superou a cultura do bronze, com o afluxo de uma nova onda de invasores: os vilanovianos (nome derivado do sítio arqueológico de Vilanova, perto de Bolonha). Quando chegaram à península, já encontraram uma população bem diversificada, formada por grupos indo-europeus presentes desde o período calcolítico (lígures, enganos, elímios e outros). Ao dominarem os vilanovianos, no século IX a.C., os etruscos fizeram a Itália se abrir para novas formas de cultura. Exploraram os minerais da Toscana e da ilha de Elba, criaram uma indústria de metais e tecidos, que comercializaram na região do Mediterrâneo. No século VIII a.C., controlavam rotas marítimas até o estreito de Messina. Nos séculos VII e VI a.C., dividiam o controle do Tirreno com Cartago e Massília.

A partir do século VIII a.C., os gregos começaram a colonizar o sul da península. Fundaram Nápoles e Paestum (atual Pesto) e estabeleceram vários núcleos na costa meridional e na jônica (Metaponto, Locros, Síbaris, Crotona, Reggio e outros), que vieram a formar a chamada Magna Grécia. Logo começaram as guerras; em 540 a.C., os etruscos aliaram-se aos cartagineses e derrotaram os gregos na batalha de Alália. A influência grega, contudo, esteve presente do século VIII ao século VI a.C., num vasto território que compreendia desde a Magna Grécia até a Apúlia e o Piceno, devido às relações comerciais. A partir de 474 a.C., a hegemonia etrusca limitou-se à planície padana (Bolonha etrusca). Com a revolta da aristocracia latina no fim do século VI a.C., formou-se uma república oligárquica e patrícia, que substituiu o regime monárquico dos etruscos. Alicerçado no campo, onde viviam os poderosos, o estado romano do século V a. C. representou um rompimento com as tradições etruscas em relação às atividades urbanas e ao comércio por via marítima.

O Império Romano só veio a consolidar-se completamente em 42 a.C., após enfrentar lutas internas, dominar diversos povos (etruscos, volscos, latinos, samnitas) e submeter os invasores. O sistema imperial alterou profundamente a organização da Itália, com a diminuição dos poderes do Senado e a criação de diversos cargos intermediários (prefeitos, cônsules e outros). Pouco a pouco, os municípios perderam autonomia para prepostos dos governadores, que controlavam as finanças e se encarregavam de cobrar altíssimos impostos.

Dentre as invasões ocorridas no final do império, destacam-se a dos visigodos, comandados por Alarico (c.370-410), e a dos hunos, sob o comando do célebre Átila (452), que morreu antes de poder anexar os territórios que conquistara. No ano 476, Rômulo Augústulo, último imperador romano do Ocidente, foi deposto por Odoacro, rei dos hérulos. O governo passou para o Império Romano do Oriente; em Constantinopla, o imperador Zenão reconheceu a autoridade de Odoacro, que desejava governar como vice-rei da Itália e rei dos godos. Em 493, o chefe ostrogodo Teodorico venceu Odoacro. A instalação do reino ostrogodo na Itália não acarretou ruptura com a cultura romana. Teodorico preservou as antigas instituições, sem violentar o sistema de vida do povo. Sua morte, contudo, trouxe dificuldades para o reino, que caminhava para a estabilidade. O imperador bizantino Justiniano enviou então Belisário para reconquistar a Itália. Em 555, com a queda do último reduto gótico, a Itália caiu sob domínio bizantino.

Os lombardos, chefiados por Alboíno, invadiram a Itália em 568. Com o tempo, assimilaram grande parte do que restava da civilização romana, inclusive o idioma, principalmente em conseqüência da adoção do cristianismo, em meados do século VII. A paz dos lombardos com Bizâncio foi celebrada em 680. A partir de então, o equilíbrio da Itália passou a depender das relações do estado lombardo com o papa. O rei lombardo Astolfo, que reinou de 749 a 756, enfrentou duas expedições francas e teve de ceder terras ao papa. O acontecimento mais significativo, porém, foi a criação de um estado pontifício independente de Bizâncio e sob a proteção do rei franco. Pouco a pouco o papa foi substituindo o poder do imperador na Itália não lombarda. O papa Estêvão II pedira auxílio a Pepino o Breve, rei dos francos, a quem conferiu o título de patrício dos romanos, em troca do exarcado de Ravena e do ducado de Roma. Com a morte de Astolfo, Estêvão tentou obter os territórios mas Pepino o fez renunciar a tais pretensões.

Novos ataques dos lombardos levaram à intervenção dos francos, dessa vez sob Carlos Magno. Coroado pelo papa Leão III, no ano 800, Carlos Magno criou o Sacro Império Romano-Germânico, cuja estrutura político-religiosa dominou a Europa até o Renascimento. O período que se seguiu a sua morte caracterizou-se pela desagregação do poder carolíngio na Itália e pelos constantes ataques dos sarracenos. Após conquistarem a Sicília, que ficou três séculos sob domínio árabe, os muçulmanos estabeleceram-se na península. Roma foi parcialmente saqueada no ano 846. Consolidaram-se, no entanto, os estados pontifícios no centro da Itália. No norte, estabeleceu-se um sistema feudal semelhante ao da Europa central.

A partir do início do século XI, as freqüentes tensões entre o papado e o imperador em torno de questões do poder temporal, debilitaram o sistema feudal em todo o território italiano. Por essa época várias cidades tinham-se tornado prósperas devido ao comércio com o Oriente. O movimento comunal, que ganhou força a partir de 1080 no norte e centro da península, marcou durante muitos séculos a vida política da Itália. Veneza se transformou numa poderosa república, que comerciava com Constantinopla e o Mediterrâneo oriental; Amalfi, uma das principais cidades comerciais do Mediterrâneo, conseguiu eliminar os piratas do mar Tirreno; Gênova e Pisa se revelaram como potências marítimas. A partir do século XI, as comunas transformaram-se em cidades-estados; a assembléia-geral deu lugar a um conselho e à magistratura dos cônsules (proprietários de terras e comerciantes ricos). A cidade-estado absorveu as cidadelas rurais e as pequenas propriedades.

Interessados em manter a independência da igreja frente ao poder temporal, os papas entraram freqüentemente em choque com o imperador, devido às intromissões nas eleições papais e na nomeação dos bispos. Tomou corpo assim a questão das investiduras, que só se resolveu em 1122, com a concordata de Worms. A partir de 1155, a monarquia centralizada da família Hohenstaufen dominou o reino da Itália. Frederico I Barba-Roxa tornou-se imperador e reclamou para si os direitos reais usurpados pelas comunas, bispos e nobres. A resistência de Milão foi esmagada em 1162 e o papa Alexandre III aliou-se às cidades antiimperiais. Logo depois formaram-se as ligas veronesa (1164) e lombarda (1167). Após muitas lutas e revoltas, fez-se a paz com o papa em 1177. O filho e herdeiro de Frederico, Henrique VI, casou-se com a herdeira da Sicília, Constança, e conquistou o reino normando em 1194. Após sua morte, Constança renunciou em favor do filho menor, Frederico, coroado em 1212, após a morte do rei alemão Oto IV, que fora sagrado imperador em 1209. Ao contrário do que prometera ao papa, Frederico II não separou o reino da Sicília do império, e por isso foi excomungado e enfrentou a oposição da igreja até sua morte em 1250; em 1263, o papa Clemente IV investiu o francês Carlos de Anjou na Sicília e marcou o fim do período Hohenstaufen.

O período em que a Itália esteve submetida aos franceses foi marcado por muitas lutas e pela oposição a Carlos de Anjou, e culminou com uma série de rebeliões e conflitos sociais no sul da península. A derrota final de Carlos de Anjou deu-se em Messina, e cresceu um movimento comprometido com as classes populares. Por essa época, os papas normalmente pertenciam a poderosas famílias italianas, que assim consolidavam seu poder.

Com a Itália sob a intervenção dos Valois, a ingerência dos papas nos assuntos franceses deu margem a conflitos com Filipe IV, o que levou à desintegração do poder papal na península; em 1303, os papas trocaram Roma por Avignon, na França. O poderoso Amadeu VI, conde de Savóia, restabeleceu a autoridade papal e em 1357, o papa retornou a Roma.


Em 1455, foi formada a Liga Italiana, ratificada pelo papa Nicolau V e que se tornou garantia para os estados menores. Livre de grandes guerras, a Itália gozou um período de prosperidade, em que todas as artes floresceram e os vários estados se aproximaram, em nome de interesses comuns. As instituições políticas, de caráter despótico, procuraram exercer autoridade direta sobre os estados da igreja. Por volta de 1490, a península experimentou o período de maior prosperidade, que marcou a fase mais brilhante da história italiana, o Renascimento.

Por volta de 1500, começou novo período de lutas internas e renovadas intervenções estrangeiras: com Carlos VIII, herdeiro da casa de Anjou, e Luís XII da França, estabeleceu-se novo domínio dos franceses, expulsos em 1504. Em 1508 o papa Júlio II formou a Liga de Cambrai e pôs fim ao domínio territorial de Veneza. Em 1512 os suíços, membros da Santa Liga criada pelo papa, ocuparam a Lombardia e expulsaram os últimos franceses. No mesmo ano, a Liga restaurou o poder dos Medici em Florença. Os franceses voltaram à carga em 1515, quando Francisco I reconquistou o ducado de Milão, mas Carlos da Áustria, que já dominava os reinos espanhóis, foi coroado imperador do Sacro Império em 1519. Em 1530, após conquistar Milão e saquear Roma, tornou-se senhor da Itália.

Durante a supremacia espanhola, o reino italiano entrou em crescente declínio econômico. A guerra intermitente com a França recrudesceu. Carlos V entregou a Itália ao filho, o futuro Filipe II da Espanha, e transferiu todos os direitos imperiais sobre o território para aquele país. Em 1542, a Inquisição foi estabelecida em Roma e sufocou qualquer oposição política aos papas. Os estados ainda lutavam por manter seus privilégios. Contudo, a Itália sofreu os efeitos econômicos da descoberta do Novo Mundo, e perdeu a supremacia financeira e naval.

Entre 1713 e 1748 estabeleceu-se o domínio austríaco, marcado pelos conflitos entre Habsburgos e Bourbons. No período entre 1748 e 1792, os principais governantes da Itália procuraram remediar a miséria da população, a riqueza excessiva do clero e os abusos do privilégio senhorial. A expulsão dos jesuítas de Nápoles (1767) e o fim do tributo anual ao papa simbolizaram a emancipação dos governantes seculares em relação ao papado. As obras de intelectuais e cientistas e a popularidade da maçonaria indicaram nova fermentação política na Itália, às vésperas da revolução francesa.

O Diretório, que governava a França após a revolução, escolheu Napoleão Bonaparte para comandar as forças da Itália. Este, em rápida campanha, derrotou as forças piemontesas e conquistou Parma, Módena, Milão e Nápoles; logo depois, invadiu os territórios papais em Bolonha e Ferrara. Em meio a rebeliões, Napoleão reorganizou a península e criou as repúblicas Cisalpina (ao norte), Cispadana (Reggio nell' Emilia, Módena e Bolonha) e Partenopéia (Nápoles). Por um breve período, exércitos austro-russos derrotaram os franceses e derrubaram as repúblicas, novamente restauradas por Napoleão a partir de 1800.

Em maio de 1804, após a proclamação do primeiro império francês, Napoleão foi coroado rei em Milão e anexou Parma ao império. Ameaçadas de perderem a independência, as principais cidades tentaram juntar-se a uma coalizão anglo-austro-russa, mas depois de várias derrotas foram forçadas a reconhecer a presença de Napoleão, a entrega da Veneza austríaca ao rei da Itália e a ocupação da Ístria e da Dalmácia. Em 1808, após divergências com o papado, Napoleão ocupou Roma e proclamou o fim do poder temporal do papa. Roma foi anexada ao império como sua segunda cidade. Logo em seguida, reformas políticas instituíram o código napoleônico, um sistema comum de administração, rudimentos de educação pública e serviço militar obrigatório.

A partir da batalha de Leipzig, em 1813, começou a invasão austríaca, com a ajuda de grupos patrióticos que acreditavam na independência após a derrota dos franceses. Os austríacos ocuparam a Lombardia mas não entregaram o poder aos patriotas, mais uma vez desiludidos. Com a restauração, os estados que haviam formado o reino da Itália foram tomados pela agitação revolucionária, organizada em sociedades secretas, como os carbonários e os federados. Movimentos revolucionários em Nápoles e Palermo (1820) e no Piemonte (1821) foram sufocados pelos austríacos. A influência da sociedade Jovem Itália, fundada em 1831 por Giuseppe Mazzini, espalhou-se rapidamente: propunha uma insurreição nacional que unificasse a Itália como república, mas o programa fracassou. Com a eleição do papa Pio IX, em 1846, começou a crise do Risorgimento. O novo papa aprovou reformas liberais que ameaçaram os austríacos e deram exemplo para outros estados. Logo a Toscana, a Sardenha e o Piemonte fizeram concessões democráticas, como a liberdade de imprensa.

O surto de liberalismo encorajou a revolução na Sicília, que em 1848 se proclamou independente da monarquia Bourbon. Logo depois, os soberanos da Toscana e do Piemonte outorgaram constituições a seus estados. Milão se rebelou e expulsou o exército austríaco; outra revolução, em Veneza, restaurou a república. Carlos Alberto, rei do Piemonte, acuou os austríacos e lhes declarou guerra.

A situação ficou fora de controle. Carlos Alberto abdicou em 1849, e seu sucessor, Vítor Emanuel II, apressou-se em firmar a paz. A Itália ficou à disposição dos austríacos. O exército popular de Giuseppe Garibaldi resistiu por algum tempo às forças francesas enviadas para restaurar o poder papal em Roma, mas a cidade foi logo tomada. O levante na Sicília foi esmagado e Veneza também capitulou. Ainda em 1849, um tratado de paz entre Áustria e Piemonte completou a pacificação.

Em 1850 tornou-se primeiro-ministro do Piemonte Camillo Benso di Cavour, cuja carreira política confundiu-se com a marcha para a unificação da Itália. O Piemonte era o único estado italiano a possuir constituição liberal, e com habilidade política, Cavour conseguiu o apoio francês no secreto Tratado de Plombières e, em abril de 1859, forçou uma aliança franco-piemontesa contra a Áustria. Após as derrotas de Magenta e Solferino, a Áustria assinou a paz em Villafranca e cedeu a Lombardia, com exceção de Mântua e Peschiera, à França, que se comprometeu a repassar o território ao Piemonte. A Toscana, a Emilia-Romagna e os ducados de Parma e Modena somaram-se voluntariamente ao novo reino. Enquanto isso, Garibaldi invadia a Sicília à frente de um grupo de voluntários e expulsava de Nápoles o rei Francisco II. Alarmado com o êxito do caudilho, Cavour ocupou as Marcas e a Úmbria e convenceu Napoleão III a fazer apenas um protesto formal. Concordou que Roma e o Lácio continuariam sob o poder papal, enquanto o restante da Itália tornava-se um reino constitucional. Sem poder contar com o apoio popular, Garibaldi foi forçado a entregar Nápoles e a Sicília ao rei piemontês, a quem reconheceu como o novo monarca da Itália.

A maior parte da Lombardia passou para o Piemonte. Depois de um breve afastamento da chefia do governo, em 1860 Cavour ofereceu Nice e a Savóia à França em troca da unificação das províncias do norte e assegurou por plebiscito a união das províncias do centro e sul (exceto Roma e a Sicília) ao Piemonte. Em 17 de março de 1861, o Parlamento reunido em Turim proclamou formalmente o reino da Itália. A anexação de Veneza, em 1866, e de Roma, em 1870, completaram a unificação italiana. A Lei de Garantias (1871) assegurou ao papa completa liberdade eclesiástica.

De 1870 a 1914, os sucessivos governos trataram de implantar um programa de modernização econômica, administrativa e militar. Para equilibrar a situação financeira, o ministério formado em 1869 por Giovanni Lanza e Quintino Sella tratou de diminuir os gastos públicos e aumentar os impostos. Com a queda de Sella em 1873, assumiu a chefia do governo Marco Minghetti, que buscou combater a inflação. A ele seguiu-se Agostino Depretis, líder esquerdista do Risorgimento, que dominou a vida política italiana de 1876 até 1887. Hábil negociador, conseguiu realizar um governo estável apesar dos antagonismos, graças à política do "transformismo", que visava incluir nas minorias parlamentares e no gabinete elementos de extrema esquerda e extrema direita. Precavendo-se contra a possibilidade de um ataque da França, Depretis assinou a Tríplice Aliança, que uniu Itália, Alemanha e Áustria-Hungria, mas o fracasso da expedição colonizadora à Etiópia em 1887, na qual morreram 500 soldados italianos, determinou sua renúncia.

Depretis foi sucedido por Francesco Crispi, cujo governo inaugurou uma nova fase na política italiana, caracterizada por uma linha autoritária no plano interno e por uma ideologia expansionista que se expressou pelo estabelecimento de protetorados na África, por uma crescente hostilidade à França e por uma progressiva aproximação com a Alemanha. Foi substituído por Antonio di Rudinì, que renovou por mais 12 anos a Tríplice Aliança.

Ao gabinete Rudinì sucedeu o do ex-ministro das Finanças de Crispi, Giovanni Giolitti, que adotou uma linha mais progressista e dominou a cena política do início do século XX até a primeira guerra mundial. Continuou as reformas internas, deu certa liberdade aos incipientes movimentos operários, criou uma avançada legislação social e protegeu a indústria do norte. Com algumas concessões, obteve apoio dos grupos católicos, e em 1913 instaurou o sufrágio universal. Foi sucedido por Antonio Salandra, político de direita, após demissão forçada.

A Itália proclamou-se neutra na primeira guerra mundial, mas depois se uniu aos aliados pelo Tratado de Londres, por interesse em terras do império austro-húngaro. Derrotados em Caporetto em 1917, os italianos resistiram e obtiveram ampla vitória em Vittorio Veneto (1918), mas os resultados foram decepcionantes: a conferência de Paris só concedeu à Itália uma parte dos territórios prometidos (o Trentino-Alto Adige). A intranqüilidade social se instalou, e as eleições de 1919 deram a vitória aos democrata-cristãos. Apesar de majoritários, os socialistas se recusaram a participar do governo e apoiaram uma série de greves, com ocupação de fábricas. Em 1920, a Itália celebrou com a Iugoslávia o Tratado de Rapallo, pelo qual ganhou quase toda a Dalmácia; ainda assim, a opinião pública não se satisfez. A burguesia, preocupada com o avanço do movimento operário, começou a apoiar maciçamente o movimento fascista, cujo líder, Benito Mussolini, encabeçou em 1922 uma marcha contra Roma, com o objetivo de tomar o poder. O rei Vítor Emanuel III, que sucedera ao pai, Humberto I, em 1900, depois de seu assassínio por um anarquista, convidou Mussolini a formar novo ministério.

Em 1924, com práticas duvidosas, Mussolini revalidou o poder nas urnas. A oposição questionou os resultados; o deputado socialista Giacomo Matteotti denunciou no Parlamento a violência fascista e pouco depois foi assassinado. Logo no início de 1925, o governo fascista modificou totalmente a estrutura e o funcionamento dos órgãos do estado. Todo o poder ficou concentrado nas mãos de Mussolini, que só nominalmente era responsável perante o rei. A Câmara dos Deputados foi substituída pela Câmara Fascista e de Corporações, com membros nomeados. Certas liberdades foram abolidas, como o direito de greve, expressão e associação. A oposição teve de emigrar ou agir na clandestinidade. Os comunistas pagaram caro por fomentar greves e infiltrar-se nas associações operárias fascistas. O líder do Partido Comunista Italiano (PCI), Antonio Gramsci, preso em 1926, morreu após 11 anos de prisão. Mas a existência ininterrupta do PCI e a luta clandestina criaram as condições para torná-lo um grande partido após a queda do fascismo. A estrutura do partido fascista se sobrepôs à do estado. Em 1929, o Tratado de Latrão restabeleceu a paz entre a Igreja Católica e o estado italiano: Mussolini concedeu ao papa a soberania sobre o estado do Vaticano e privilégios à igreja.

A política expansionista que Mussolini levou a efeito na África, a partir da conquista da Etiópia, criou dificuldades com as democracias ocidentais, sobretudo França e Reino Unido. Após a invasão da Albânia, Mussolini se aproximou da Alemanha nacional-socialista durante a guerra civil espanhola. Ao iniciar-se a segunda guerra mundial, Mussolini declarou guerra aos aliados e empreendeu a conquista da Grécia.

A guerra representou uma sucessão de derrotas para o exército italiano, e o descontentamento interno cresceu. Em 1943, o Grande Conselho Fascista destituiu Mussolini, e Vítor Emanuel III nomeou chefe do governo o marechal Pietro Badoglio, que firmou com os aliados o armistício, em 3 de setembro do mesmo ano. Em abril de 1945, o líder fascista caiu em mãos dos partigiani (membros da resistência italiana), que o executaram, e no mesmo mês, as tropas alemãs capitularam ante os aliados.

Os resultados da guerra foram desastrosos para a Itália. Em 1946, Vítor Emanuel III abdicou em favor do filho, Humberto II, mas um plebiscito substituiu a monarquia pela república. O democrata-cristão Alcide De Gasperi, considerado o político italiano mais capaz desde Cavour, formou um governo de coalizão. As eleições para a Assembléia Constituinte deram vitória aos democrata-cristãos. Em janeiro de 1948 entrou em vigor a constituição republicana, e Luigi Einaudi foi eleito presidente da república. No ano seguinte a Itália participou da fundação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e tornou-se membro do Conselho da Europa.

Após De Gasperi, sucederam-se gabinetes de curta duração: Giuseppe Pella, Amintore Fanfani, Mario Scelba e Antonio Segni. Em 1963, o democrata-cristão Aldo Moro formou um governo de centro-esquerda e manteve-se no poder até 1968. Seguiram-se vários governos de coalizão: Mariano Rumor, Emilio Colombo (que fez aprovar a lei do divórcio, apesar da oposição do Vaticano), Giulio Andreotti, novamente Rumor, Aldo Moro, Andreotti. Em 1978, Moro foi seqüestrado e morto pelas Brigadas Vermelhas, grupo terrorista de esquerda. No mesmo ano chegou à presidência o socialista Sandro Pertini, veterano da resistência contra o fascismo, que negociou com o Vaticano nova concordata, quando a Igreja Católica deixou de ser oficial.

Em 1979, Francesco Cossiga sucedeu a Andreotti como primeiro-ministro, mas renunciou em 1980. Seguiram-se Arnaldo Forlani, Giovanni Spadolini, Amintore Fanfani e Bettino Craxi, o primeiro socialista a governar o país. Nas eleições presidenciais, Francesco Cossiga sucedeu a Pertini. O governo Craxi sobreviveu às graves crises políticas que marcaram a década de 1980, principalmente a do navio Achille Lauro, quando o primeiro-ministro se recusou a entregar aos Estados Unidos os terroristas árabes responsáveis pelo seqüestro do barco e o negociador Abul Abas, enviado pelo líder da Organização para a Libertação da Palestina, Yasser Arafat.

No começo da década de 1990, a Itália enfrentou três grandes desafios: os problemas econômicos, a luta contra a Máfia e o combate à corrupção. A dívida interna obrigou o governo a cortar os gastos públicos e iniciar privatizações. Na guerra contra a Máfia, em resposta ao assassínio de juízes e a atentados a bomba, a polícia prendeu vários líderes do crime organizado. No combate à corrupção, a "operação Mãos Limpas", iniciada em 1992, condenou dezenas de empresários, funcionários públicos e políticos.

Dois anos depois, o direitista Silvio Berlusconi, dono do segundo conglomerado de comunicações do país, fez uma aparição súbita e meteórica pela cena política italiana. Eleito primeiro-ministro, Berlusconi assumiu o cargo em maio, quando quando se divulgavam graves denúncias de extorsão, chantagem, roubos e falsificações contra a classe política que há décadas dominava o poder. Também atingido por um escândalo, que envolvia o grupo empresarial por ele controlado, Berlusconi passou a ser investigado pela "operação Mãos Limpas" e acabou renunciando ao cargo de primeiro-ministro em dezembro de 1994.

Incapaz de encontrar um sucessor para Berlusconi que obtivesse maioria no Congresso, o presidente Oscar Scalfaro nomeou um governo provisório formado por elementos que não pertenciam ao governo e liderado pelo economista Lamberto Dini, conhecido por suas tendências direitistas. Seu programa de governo incluía a solução para o enorme déficit italiano, mudanças na concessão de pensões e um novo sistema eleitoral regional.

 

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