A elegância desestruturada e leve da jaqueta napolitana sempre foi reconhecida como um símbolo de sofisticação e excelência no mundo da moda masculina. Agora, contudo, a cidade de Nápoles quer dar um passo além: transformar a sua lendária sartoria (alfaiataria) em um patrimônio com proteção jurídica europeia, aplicando à moda o mesmo mecanismo que consagrou o presunto de Parma e os vidros de Murano e Burano.
O movimento é liderado pela associação Le Mani di Napoli, uma coalizão de mestres artesãos que se uniu para salvaguardar a tradição da região da Campânia. A iniciativa aproveita o Regulamento (UE) 2023/2411, da União Europeia, que estendeu aos produtos artesanais e industriais as diretrizes de Indicação Geográfica Protetta (IGP), antes reservadas a artigos agrícolas e alimentícios.
O objetivo não é proteger uma marca específica de luxo, mas sim blindar todo o ecossistema cultural e produtivo que torna a alfaiataria napolitana única. A peça final – famosa pelas ombreiras suaves, cavas altas e caimento leve – é fruto de uma engrenagem coletiva e altamente especializada.
Modelistas, cortadores, alfaiates, bordadeiras e especialistas em casas de botão formam uma rede de mãos interconectadas que transmite esse savoir-faire de geração em geração.
Com o avanço do processo de estruturação do dossiê técnico e o envolvimento de órgãos do governo italiano e da União Europeia, Nápoles busca desencorajar falsificações globais e produções em massa que utilizam indevidamente o nome da cidade.
Se aprovada a certificação, a sartoria napoletana reafirmará o valor insubstituível do trabalho humano e do território na confecção de artigos de luxo, garantindo que o futuro dessa arte permaneça vivo nas mãos de quem a criou.
Sartoria napolitana em números
Estima-se que existam cerca de 200 a 300 ateliês e oficinas de alfaiataria na região metropolitana de Nápoles, variando de grandes e renomadas casas internacionais até pequenas oficinas familiares escondidas nos bairros tradicionais.
Três das mais antigas, famosas e emblemáticas marcas de sartoria napoletana que construíram e definiram a fama desse estilo no mundo são:
1. Rubinacci (Fundada em 1932)
Considerada o “berço” do estilo napolitano moderno. Fundada por Gennaro Rubinacci sob o nome original de London House, a casa revolucionou a alfaiataria ao desestruturar o terno britânico tradicional, eliminando o forro pesado e as ombreiras rígidas para criar um casaco leve e adequado ao clima do Mediterrâneo. É uma referência global de elegância e atende reis, estadistas e celebridades há gerações.
2. Cesare Attolini (Fundada nos anos 1930)
O pai da marca, Vincenzo Attolini (que trabalhava justamente no ateliê de Gennaro Rubinacci), é lembrado como o criador técnico do corte napolitano. Ele introduziu a famosa curva no bolso do peito (conhecida como barchetta) e as mangas drapeadas (spalla camicia). Hoje, a marca leva o nome de seu filho Cesare e continua produzindo ternos feitos à mão comercializados nas ruas de compras mais exclusivas do planeta.
3. Kiton (Fundada em 1968)
Apesar de ter sido fundada nos anos 1960 por Ciro Paone, suas raízes artesanais vêm de gerações de negociantes de tecidos. A Kiton foi a responsável por industrializar o modelo artesanal sem perder a qualidade do feito à mão, tornando-se sinônimo do luxo italiano extremo. A empresa opera como uma grande escola de alfaiataria em Nápoles, treinando jovens artesãos para manter a tradição viva.




