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Com Merkel de saída, Itália e França assinam tratado bilateral

Fabio Botto
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Com Angela Merkel prestes a deixar o poder, Itália e França assinaram em Roma, um tratado para estreitar as relações entre os dois países, que chegaram a ficar estremecidas entre 2018 e 2019 por causa dos embates entre o presidente Emmanuel Macron e líderes populistas.

O chamado “Tratado do Quirinale”, que leva o nome da sede da Presidência da República Italiana, foi firmado por Macron e pelo primeiro-ministro Mario Draghi, na presença do presidente Sergio Mattarella.

“O tratado de cooperação reforçada assinado nesta manhã marca um momento histórico das relações entre Itália e França. A partir de hoje estamos ainda mais próximos”, declarou Draghi. “Criaremos uma visão geopolítica comum, já que compartilhamos a visão europeia e internacional”, reforçou Macron.

Segundo o presidente francês, os dois países trabalharão juntos para criar um sistema europeu de defesa e para proteger as fronteiras externas da Europa, tema que voltou à pauta com o recrudescimento da crise humanitária no Mediterrâneo e a morte de 27 migrantes no Canal da Mancha.

O tratado tem 14 páginas divididas por 12 capítulos, como relações exteriores, segurança, cooperação econômica e digital, políticas migratórias, espaço, educação, desenvolvimento social e cultura.

“Nós, Itália e França, compartilhamos muito mais que fronteiras. Nossa história, nossa arte, nossas economias e sociedades se entrelaçam há tempos, e as instituições que temos a honra de representar se apoiam sobre os mesmos valores republicanos, sobre o respeito aos direitos humanos e civis e sobre o europeísmo”, acrescentou Draghi.

O acordo assinado prevê que um ministro italiano participe de pelo menos uma reunião do governo francês a cada três meses e vice-versa. Também haverá uma cúpula bilateral anual para verificar a implantação do tratado.

O texto ainda estabelece mecanismos de consultas diretas em tempos de crises para facilitar a coordenação entre os dois países e prevê cooperações entre as embaixadas italianas e francesas em outras nações.

Reconstrução

A assinatura do tratado chega pouco mais de dois anos depois de as relações Itália-França terem atingido seu ponto mais baixo desde a Segunda Guerra Mundial, o que culminou na convocação do embaixador francês em Roma para consultas.

Na época, a Itália era governada por uma aliança entre o antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S) e a ultranacionalista Liga, cujos respectivos líderes, Luigi Di Maio (que ainda hoje é ministro das Relações Exteriores) e Matteo Salvini, faziam recorrentes críticas a Macron.

Enquanto Salvini chegou a chamar o presidente de “senhorzinho que se excede no champanhe”, Di Maio se reuniu na França com um representante do movimento dos “coletes amarelos” que defendia uma intervenção militar para derrubar Macron.

No entanto, com o rompimento da aliança M5S-Liga, em agosto de 2019, os dois países iniciaram uma reaproximação que culminou no Tratado do Quirinale. A reaproximação se dá no momento em que a União Europeia está prestes a perder sua grande liderança: a chanceler da Alemanha, Angela Merkel.

Defensores da integração europeia, Macron e Draghi são cotados para ocupar o vácuo deixado pela aposentadoria de Merkel, embora o primeiro tenha eleições pela frente em 2022 e o segundo governe um país historicamente instável do ponto de vista político.

Ainda assim, Macron negou que o acordo Itália-França seja uma forma de compensar a saída da chanceler alemã. “Merkel ainda está no cargo, falei com ela nesta manhã para coordenar iniciativas contra a nova variante do coronavírus. Tenho muito respeito e amizade por ela”, disse.

Segundo o presidente, a UE deve ser construída pelos 27 Estados-membros. “Não precisamos buscar nas diversas alianças os substitutos de um ou de outro. São relações que se completam e se reforçam”, acrescentou.

Já o porta-voz de Merkel, Steffen Seibert, afirmou que a Alemanha “não tem ciúmes” de acordos bilaterais entre “países amigos”. “Não existe nenhuma preocupação desse tipo”, garantiu, ao responder se a aproximação entre Paris e Roma poderia reduzir o peso de Berlim na UE.

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