Augusta Candiani PDF Imprimir E-mail

Augusta CandianiAugusta Candiani foi uma das artistas mais reverenciadas do Segundo Reinado. Do estrondoso sucesso de início de carreira em 1844, quando aqui representou o papel título da ópera Norma de Vicenzo Bellini, passou a outros gêneros - cantou de árias a modinhas, viajou com uma companhia dramática a várias cidades do Brasil; foi atriz e professora de canto no Rio Grande do Sul e ao final da carreira representou em elencos de mágicas, vaudevilles e operetas – construindo uma curva coincidente com o próprio gosto das plateias.

Portanto, resgatar essa trajetória é percorrer também a história do teatro e da música no Brasil através de uma voz soprano - uma figura feminina de extrema força romântica, a mais viva encarnação desse espírito, conforme bem observa sobre Candiani o musicólogo Luiz Heitor na obra 150 anos de Música no Brasil: “uma jovem italiana que revolucionou os inflamáveis corações da juventude romântica com a sua arte refinada e pujante. Ela mesma era a mais viva encarnação do espírito romântico, generosa, impulsiva, mais dócil aos caprichos do coração do que aos apelos da razão”.

História de uma artista do passado que nos surpreende com sua forte marca de impetuosidade também na vida pessoal – se divorciando de seu marido italiano para se casar com um brasileiro, compositor de modinhas e empresário de teatro. Viveu seus últimos dias em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio de Janeiro, no ostracismo, e em casa doada pelo Imperador D. Pedro II, padrinho de sua primeira filha. Um personagem dramático e lírico que percorreu uma trajetória rica em desdobramentos.

A múltipla figura artística de Augusta Candiani pode ser considerada símbolo de alvorada e ocaso do Segundo Reinado. A artista viveu estrondoso sucesso em 1844 até a discreta atividade artística em 1880, vindo a falecer três meses após a proclamação da República. Para nós, essa trajetória representa a relação entre arte e vida, indivíduo e história social.

A atuação de atores e atrizes na história do teatro tem sido fonte de pesquisas relevantes na historiografia referente ao século XX; sobre atores e atrizes do século XIX, entretanto, comparativamente, pouco se tem pesquisado. Acreditamos que, ao apreender a trajetória de atores, revelamos aos olhos contemporâneos modos e práticas de produção e estética que de outro modo não seria possível expor. E valorizamos um período inaugural dos conceitos de identidade e cultura brasileira. Augusta Candiani transitou entre vários gêneros e viajou a outras cidades do Brasil e ao interior do Estado do Rio de Janeiro, o que nos permite investigar e pôr a luz também a produção de teatro e música nessas localidades e as características dos mercados de trabalho existentes para um artista no século XIX.

A motivação original para buscar essa história partiu de uma percepção bastante clara: o repertório artístico de Augusta Candiani identificava-se com as etapas e modos de produção dos gêneros de música e teatro da segunda metade do século XIX. Portanto, investigar e percorrer essa trajetória se torna contribuição importante à história do teatro e da música do Brasil no século XIX.

Uma segunda motivação, refere-se ao fato de que, até onde sabemos, não há qualquer obra publicada sobre a vida e a carreira de Augusta Candiani no Brasil, apesar das diversas referências - nem sempre extensa e cuidadosa - encontrarmos sobre sua atuação artística na bibliografia histórica e literária referente a esse período.

A cantora atuou do lírico ao dramático, da modinha à ária, da opereta à mágica, adotando, como atriz e cantora, um trânsito de gêneros raro às artistas de sua época. E essa multiplicidade faz a sua históriaser objeto rico para diversas linhas de pesquisa. Para os estudos em teatro e música, especialmente as mais ricas expressões desse trânsito, essa multiplicidade artística configura-se pela atuação em diversos gêneros, sempre como atriz e/ou cantora. Com a publicação desse trabalho, acreditamos que cobrimos uma lacuna histórica.

 

FONTE: STARK, Andrea Carvalho. “Augusta Candiani”. In: Augusta - a ópera, o teatro e a música de Augusta Candiani na Corte de D. Pedro II”. em http://augustacandiani.blogspot.com

Imagem: Acervo de família (cedida por Andrea Carvalho Stark, 2011).

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