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Itália e Alemanha unem forças para reduzir dependência da China e proteger a indústria europeia

O acordo anunciado durante o vertice intergovernativo (cúpula intergovernamental) entre Itália e Alemanha, em encontro entre a primeira-ministra Giorgia Meloni e o chanceler alemão Friedrich Merz na Villa Doria Pamphilj, marca mais do que um gesto diplomático: revela uma mudança estrutural na forma como as duas maiores economias industriais da União Europeia pretendem proteger sua base produtiva em um cenário global cada vez mais instável.

No centro da parceria está a segurança das cadeias de suprimentos de matérias-primas críticas – minerais e insumos essenciais para setores como semicondutores, tecnologia, energia renovável, automóveis e defesa. A iniciativa nasce, em parte, da constatação de que o mercado global desses materiais é hoje fortemente concentrado e vulnerável a pressões geopolíticas.

China como fator-chave, mas não único

Um dos motores evidentes do acordo é a dependência europeia da China em diversos segmentos estratégicos. Pequim controla grande parte da produção e do processamento mundial de terras raras, metais estratégicos e componentes fundamentais para a transição energética e a digitalização.

Autoridades italianas e alemãs foram explícitas ao afirmar que não querem que um único país tenha poder desproporcional para influenciar preços, restringir exportações ou condicionar cadeias industriais inteiras. A preocupação é que tensões comerciais, decisões políticas ou choques externos possam interromper fluxos vitais para a indústria europeia.

Reduzir a dependência chinesa é uma parte do problema

O acordo também responde a uma mudança mais profunda no ambiente internacional. Após a pandemia, a guerra na Ucrânia e a crescente fragmentação do comércio global, Itália e Alemanha passaram a tratar o acesso a matérias-primas como uma questão de segurança econômica, não apenas comercial.

O objetivo é construir cadeias mais diversificadas, previsíveis e resilientes, combinando três frentes: maior coordenação entre países europeus, parcerias com fornecedores considerados confiáveis fora da UE e, quando possível, desenvolvimento de capacidades internas de processamento, reciclagem e inovação.

Ao atuar em conjunto, Roma e Berlim buscam ainda liderar a política industrial europeia, influenciando decisões da Comissão Europeia sobre incentivos, regulamentações e investimentos em setores estratégicos.

Benefícios diretos para a Itália

Para a Itália, o acordo oferece ganhos em várias camadas.

Primeiro, há um benefício econômico e industrial: cadeias de suprimento mais estáveis reduzem o risco de interrupções, escassez e picos de preços que afetam diretamente empresas italianas de alta tecnologia, automóveis, máquinas e energia limpa.

Segundo, há um ganho de competitividade. Com acesso mais seguro a insumos críticos, empresas italianas podem planejar investimentos de longo prazo, inovar mais e manter posição em mercados globais cada vez mais disputados.

Terceiro, o acordo com a Alemanha – principal parceiro comercial da Itália na UE – reforça a integração das cadeias produtivas entre os dois países, potencialmente atraindo novos investimentos, projetos conjuntos e transferência de tecnologia.

Por fim, há um efeito político: ao se alinhar com Berlim em um tema central da agenda europeia, a Itália amplia seu peso nas decisões estratégicas da União Europeia, deixando de ser apenas executora para se tornar formuladora de políticas industriais.

Movimento de longo prazo

O acordo não produz resultados imediatos. Construir novas cadeias de fornecimento, abrir minas, instalar plantas de processamento ou firmar parcerias internacionais é um processo de anos.

Ainda assim, o sinal político é claro: Itália e Alemanha querem reduzir vulnerabilidades, fortalecer sua autonomia estratégica e preparar a indústria europeia para um mundo em que acesso a recursos será tão decisivo quanto acesso a mercados.

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