O Ministério Público de Roma ampliou as investigações sobre a interceptação da Flotilha Global Sumud por autoridades israelenses e avalia possíveis acusações de tortura, agressão sexual e sequestro contra os responsáveis pela detenção dos ativistas.
Informações divulgadas revelam que os magistrados da Piazzale Clodio analisam o vídeo divulgado nas redes sociais pelo ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, que mostram integrantes da missão ajoelhados, algemados e com as mãos presas nas costas.
Os investigadores estariam pretendendo verificar se há cidadãos italianos nas imagens e avaliar o conteúdo das declarações do ministro israelense, consideradas provocativas.
Paralelamente, ativistas que retornaram à Itália começaram a prestar depoimento à promotoria. Entre eles está o deputado do Movimento 5 Estrelas (M5S), Dario Carotenuto.
A equipe jurídica italiana da Flotilha também prepara uma denúncia formal por tortura referente às condições de detenção impostas aos ativistas no porto israelense de Ashdod. Os advogados coletam relatos dos italianos que regressaram ao país e devem complementar uma ação já protocolada em 19 de maio na Procuradoria de Roma.
De acordo com fontes ligadas à organização, cerca de 50 ativistas foram hospitalizados em Istambul após sofrerem ferimentos durante a detenção em Israel. Entre os internados estaria um cidadão italiano.
“Estamos tentando obter informações sobre o estado de saúde dele”, afirmou a porta-voz italiana da Flotilha, Maria Elena Delia.
Segundo ela, diversos participantes relataram ferimentos graves e sintomas de choque psicológico.
Em Florença, os ativistas Dario Salvetti e Antonella Bundu descreveram a experiência em uma coletiva de imprensa. Eles afirmaram que os detidos permaneceram algemados, sem acesso adequado a água, alimentação e instalações sanitárias, além de relatarem agressões físicas, uso de balas de borracha, armas de choque e humilhações.
“Tecnicamente, estávamos em um campo de concentração flutuante no meio do Mediterrâneo: não é um termo que usamos levianamente, mas a partir do momento em que alguém aponta uma metralhadora para você e o sequestra, levando-o para um lugar onde você não tem direitos. Em um regime prisional severo, você sabe quais são seus direitos. Naquele momento, não estávamos cobertos por nenhuma convenção internacional; não sabíamos quais direitos nos protegiam”, relataram.
De acordo com os ativistas, alguns participantes sofreram agressões sexuais e choques elétricos, inclusive em áreas sensíveis do corpo. Eles também afirmaram que agentes israelenses utilizaram um líquido amarelo lançado por canhões de água para forçá-los a entrar em contêineres cercados por arame farpado.
“Cada um de nós passou por coisas semelhantes, mas diferentes; cada um de nós foi torturado de maneiras diferentes. Sabemos de armas de choque sendo usadas em pessoas molhadas, no pescoço ou nos genitais; sabemos de agressões sexuais, de pessoas sendo atingidas por balas de borracha. Vimos pessoas implorando para que as abraçadeiras fossem afrouxadas porque suas mãos estavam sangrando”, acrescentaram os ativistas.
A organização Human Rights Watch criticou a divulgação dos vídeos por Ben-Gvir. Em nota, a pesquisadora interina para Israel e Palestina, Sarah Sanbar, afirmou que as imagens demonstram que “os abusos não apenas são tolerados, mas celebrados pelo governo israelense”.
Segundo Sanbar, palestinos presos em Israel relatam há anos situações semelhantes de humilhação e violência.
A Human Rights Watch também reiterou críticas ao bloqueio imposto à Faixa de Gaza e defendeu a suspensão da transferência de armas para Israel, além do cumprimento das determinações da Corte Internacional de Justiça relativas ao acesso humanitário ao território palestino.
Nos últimos dias, o governo italiano convocou o embaixador israelense em Roma após a divulgação dos vídeos e solicitou à União Europeia a adoção de sanções contra Ben-Gvir.




