
O trabalhador humanitário italiano Alberto Trentini, que permaneceu 423 dias detido na Venezuela sem acusação formal, recebeu a informação do diretor do presídio Rodeo I de que era “moeda de troca”.
Ele revelou não ter sofrido violência física dos agentes enquanto vivenciou as “duras condições” das celas.
“Por volta de janeiro do ano passado, sem rodeios, o diretor da prisão nos disse que éramos ‘moeda de troca'”, falou Trentini em uma entrevista ao programa Che Tempo Che Fa.
Segundo ele, detido no país sul-americano em novembro de 2024, foi naquele momento que se deu conta de que não havia acusação formal contra ele e outros 92 estrangeiros mantidos no cárcere em situação semelhante.
“Fui preso em uma área perto da Colômbia, em um posto de controle fixo”, contou o italiano, que chegou a Caracas em 17 de outubro de 2024 para atuar como voluntário em uma ONG de direitos humanos. Após ter seus documentos conferidos pelas autoridades, aguardar por “alguns telefonemas dos agentes” e ser “obrigado a entregar” seu celular, Trentini foi levado a uma sala onde passou por um interrogatório de quatro horas.
“Dois dias após minha prisão, me levaram para uma bela casa em Caracas e depois para uma sala muito quente, onde me submeteram a um teste de polígrafo”, acrescentou o italiano de 46 anos, natural de Veneza.
Após ser levado para o presídio Rodeo I, na capital venezuelana, ele trocou de cela “muitas vezes”, ainda que todas medissem “dois metros por quatro”, com um buraco que “servia de latrina e de lugar para o banho, com uma torneira em cima”.
As condições eram “muito, muito duras. Tínhamos água duas vezes ao dia, que usávamos para tomar banho e para a latrina, em horários diferentes, quando eles queriam. Também havia pouquíssimos livros e me tiraram os óculos, me deixando em dificuldades”, afirmou Trentini, que ganhou um par de óculos de uns colegas colombianos, permitindo com que ele pudesse, ao menos, “ver o rosto da pessoa com quem estava interagindo”.
“Eles [os colombianos] me deram um tabuleiro de xadrez com todas as peças feitas de papel higiênico, sabão e água, as pretas levemente tingidas de café. Esse foi o melhor presente porque, no fim, me permitiu jogar com coordenadas, com a cela na minha frente”, acrescentou.
Durante a entrevista, Trentini também confirmou não ter sofrido violência física, que era destinada àqueles “com suspeita de terem cometido” qualquer reato. Já com relação aos abusos psicológicos, esses eram “constantes”.
“Só pelo fato de não saber nunca quando seríamos soltos, de não termos direito à defesa, isso para mim é [violência psicológica]”, declarou o veneziano, revelando que os detentos contavam “os dias” escrevendo na parede.
“Sabia que dia era, mas não sabia quando era o domingo de Páscoa”, exemplificou.
Antes de ir para o Rodeo I, Trentini foi levado para o presídio Aquário, também chamado de El Helicoide, onde passou dez dias sentado em uma cadeira. Quando chegou ao local, havia 20 pessoas na mesma situação; quando saiu, eram 60.
“É uma sala com vidro, onde você não consegue ver o que está acontecendo lá fora. Você fica sentado em uma cadeira o dia todo, das seis da manhã às nove da noite, sem poder falar”, disse Trentini. Ainda segundo o italiano, os detentos recebiam comida “três vezes ao dia e um pouco de água”, com “a maior parte do tempo” sendo “gasta para ir ao banheiro, um de cada vez”.
Os agentes permitiram com que ele falasse com seus pais por telefone, o que o tranquilizou “um pouco”, depois dos seis primeiros meses sem “qualquer notícia” do mundo exterior.
Já com relação à captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro no último 3 de janeiro pelos Estados Unidos, Trentini contou que soube do ocorrido com alguns dias de atraso.
“No dia da captura de Maduro, sabíamos que algo grave havia acontecido, mas não sabíamos o que” era, falou.



