Quando se fala em patrimônio cultural da UNESCO, vêm à mente monumentos históricos, tradições populares ou manifestações artísticas. Agora, a Itália quer levar para essa lista um dos símbolos mais conhecidos do Made in Italy: a arte de fabricar calçados.
A candidatura apresentada neste mês não se refere a um modelo específico de sapato nem a uma marca famosa. O que a Itália pretende ver reconhecido pela UNESCO é a chamada Arte della Calzatura Italiana, expressão que engloba o conjunto de conhecimentos, técnicas e tradições que transformaram o país em uma referência mundial na produção de calçados de alta qualidade.
A proposta busca incluir a tradição na lista de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, destinada a proteger saberes transmitidos entre gerações. É o mesmo princípio que levou ao reconhecimento da arte dos pizzaiolos napolitanos e da tradicional luteria de Cremona, cidade conhecida mundialmente pela fabricação artesanal de violinos.
Na prática, a candidatura valoriza todo o processo que está por trás de um calçado italiano. Isso inclui a criação dos modelos, a escolha dos materiais, a modelagem, o corte do couro, a costura, a montagem e os acabamentos, além da transmissão desses conhecimentos de mestres artesãos para jovens profissionais.
O conceito de “arte” empregado na candidatura não deve ser entendido apenas como expressão estética. Na tradição italiana, a palavra também remete aos antigos ofícios artesanais que, desde a Idade Média, constituem parte fundamental da identidade econômica e cultural do país. Trata-se do chamado saper fare – o saber fazer – que combina técnica, criatividade, experiência e conhecimento acumulado ao longo de gerações.
Outro aspecto central da proposta é o reconhecimento dos chamados distritos produtivos, regiões inteiras especializadas na fabricação de calçados. Áreas como Marche, Riviera del Brenta, Toscana e Campânia abrigam milhares de pequenas e médias empresas que, muitas vezes, permanecem sob controle familiar há décadas e continuam produzindo de forma artesanal ou semiartesanal.




