
Em uma articulação que evidencia a mudança de estratégia da Europa diante da pressão migratória, a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, e a chefe de governo da Dinamarca, Mette Frederiksen, propuseram à União Europeia a criação de um fundo emergencial de €2,7 bilhões para conter o fluxo de migrantes ainda fora do território europeu.
A iniciativa, formalizada junto ao Conselho Europeu, marca uma inflexão na política migratória do bloco: em vez de concentrar recursos apenas no controle das fronteiras — especialmente no Mediterrâneo —, o plano aposta na contenção “na origem”, financiando países de trânsito e regiões de crise.
O valor de €2,7 bilhões seria distribuído em três frentes principais. A maior parcela, cerca de €1,2 bilhão, seria destinada ao reforço de infraestrutura e segurança em países como Tunísia, Líbia e Egito, considerados rotas-chave para a saída de migrantes rumo à Europa. Outros €800 milhões seriam direcionados à ajuda humanitária em regiões instáveis, sobretudo no Médio Oriente e no Corno de África, com o objetivo de reduzir o incentivo à travessia. Já €700 milhões financiariam centros de processamento de pedidos de asilo fora da UE, um modelo controverso defendido há anos por Copenhaga e que Roma passou a testar com acordos externos.
A aliança entre Meloni, representante da direita conservadora, e Frederiksen, social-democrata, chama atenção em Bruxelas. Apesar das diferenças ideológicas, ambas convergem no diagnóstico de que o atual sistema europeu de migração está sob forte pressão. Para a Itália, principal porta de entrada pelo sul, trata-se de uma questão operacional, com centros de acolhimento frequentemente sobrecarregados. Para a Dinamarca, o foco está na manutenção de um modelo rígido de controle migratório e preservação do Estado de bem-estar.
A proposta, no entanto, enfrenta resistência significativa dentro do Parlamento Europeu e de organizações de direitos humanos. Críticos acusam o plano de externalizar responsabilidades e de transferir para países terceiros — muitos com histórico de instabilidade institucional — o controle migratório europeu. Também há dúvidas jurídicas sobre a compatibilidade desse modelo com o direito internacional de asilo.
As duas líderes, por sua vez, defendem que a alternativa é a escalada do problema. O argumento central é que, sem intervenção antecipada, redes de tráfico humano continuarão a determinar os fluxos migratórios. A pressão agora recai sobre a Comissão Europeia, que terá de avaliar se há espaço político e orçamental para viabilizar o fundo.



