A oposição italiana criticou a decisão do governo da primeira-ministra Giorgia Meloni de manter controles nas fronteiras marítimas e aéreas com a Espanha, após a “invasão” de migrantes em Ceuta.
A medida, adotada com base nas regras do Espaço Schengen, foi considerada como “uma crise diplomática desnecessária” com Madri e uma forma de prejudicar os cidadãos italianos. A tensão aumentou depois que a Espanha também decidiu impor controles aos viajantes procedentes da Itália até o próximo dia 7 de setembro.
Nicola Fratoianni, líder da Aliança Verde e da Esquerda (AVS), classificou a decisão italiana como um erro que poderá ter consequências para o país. “A propaganda cínica do governo Meloni produziu o que era previsível: um efeito bumerangue que os italianos pagarão caro”, afirmou.
Segundo Fratoianni, o governo deveria revogar imediatamente a suspensão das regras de livre circulação previstas pelo Acordo de Schengen, porque a medida “é um erro colossal”.
O ex-premiê da Itália e líder do Movimento Cinco Estrelas (M5S), Giuseppe Conte, também atacou a decisão. Para ele, a medida representa “propaganda estéril de um governo que fracassou nos desembarques e repatriações”.
Conte comparou a postura atual de Meloni com a reação do governo italiano diante do aumento dos desembarques de migrantes no país. De acordo com ele, nos últimos quatro anos, o país registrou cerca de 150 mil desembarques a mais do que a Espanha.
“Quando Meloni se deparou com um número recorde de desembarques, ela escreveu para Ursula von der Leyen, que viajou para Lampedusa e pediu solidariedade de toda a Europa. Quando isso acontece com você, você pede solidariedade europeia; se acontece com a Espanha, você suspende Schengen?”, questionou.
O deputado Angelo Bonelli, da AVS e coporta-voz do Europa Verde, afirmou que “Meloni provocou uma crise com a Espanha — uma crise tão inútil quanto prejudicial — na tentativa de recuperar apoio na Itália”.
Bonelli considerou inaceitável utilizar o cargo de primeira-ministra para fazer propaganda contra a Espanha, país que, segundo ele, sempre demonstrou solidariedade à Itália em momentos de dificuldade.
O parlamentar também questionou a justificativa relacionada aos acontecimentos em Ceuta, enfatizando que o enclave não integra o Espaço Schengen e os migrantes envolvidos nos episódios não chegaram à Europa por via aérea.
Já a deputada Laura Boldrini, do Partido Democrático (PD), afirmou que a crise se transformou em um “gol contra” para o governo italiano.
Segundo ela, a decisão de suspender as regras de livre circulação em relação à Espanha foi desproporcional, já que a crise em Ceuta teria sido resolvida em 48 horas, com a maior parte dos migrantes retornando ao Marrocos.
Riccardo Magi, secretário do partido Più Europa, classificou a crise como “extremamente grave” e afirmou que ela demonstra os efeitos do nacionalismo sobre a integração europeia.
Para Magi, a decisão italiana representa um “efeito bumerangue” para Meloni, que estaria cada vez mais isolada na Europa também no debate sobre a gestão migratória.
O parlamentar destacou ainda que nenhuma das pessoas que entraram ilegalmente pela região de Ceuta teria sido impedida de chegar à Itália, o que, em sua avaliação, torna a manutenção dos controles ainda mais contraditória.
Enquanto Meloni e seus ministros ainda não comentaram a decisão espanhola, integrantes da base governista defenderam a manutenção dos controles.
Maurizio Lupi, líder do partido Noi Moderati, afirmou que a Espanha continua sendo “uma grande amiga da Itália”, mas criticou as políticas migratórias do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que teria aberto “as portas para a imigração ilegal — algo que nem a Itália nem a Europa podem aceitar”.
Segundo ele, o problema não será resolvido por meio de “chantagem”, mas com uma mudança de política, respeito às diretrizes europeias e atuação conjunta dos países.
O Força Itália, partido do ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, também defendeu a decisão do governo, afirmando que informações provenientes da Espanha indicavam a chegada de pessoas em situação irregular.
De acordo com o partido, cerca de 15 migrantes em situação irregular que viajavam da Espanha para a Itália foram interceptados durante verificações realizadas em cinco aeroportos do norte italiano.
Os controles foram estabelecidos após Roma suspender as regras de Schengen para viajantes procedentes da Espanha.




