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Pobreza na Itália: o surgimento dos mercados solidários e gratuitos

Em meio ao aumento das desigualdades sociais e do novo rosto da pobreza (pessoas de classe média que passaram a sofrer dificuldades financeiras, trabalhadores impossibilitados de viver em grandes cidades como Milão e migrantes regularizados), a Caritas Ambrosiana, organização vinculada à Arquidiocese de Milão, tem apostado em uma resposta inovadora: os chamados Empori della Solidarietà – minimercados solidários onde famílias em condição de vulnerabilidade podem fazer suas compras básicas com dignidade, autonomia e respeito.

Atualmente, 2,2 milhões de famílias vivem em situação de pobreza na Itália. Embora a iniciativa ainda pareça um grão de areia numa praia quilométrica, hoje já existem 37 supermercados e lojas solidárias, totalmente gratuitos, em Milão e nas cidades do entorno. Há outros em operação, pelas mãos de outras gestões, em cidades italianas como Roma e Verona.

Não se trata de uma simples distribuição de alimentos, mas de uma proposta educativa e comunitária que visa combater não apenas a fome, mas as causas sociais do empobrecimento e a exclusão social. Os Empori surgem, assim, como uma alternativa ao modelo tradicional de assistência, buscando proporcionar escolhas conscientes às pessoas atendidas e fortalecer seu papel ativo na própria trajetória de vida.

Origem e evolução do modelo

A ideia dos Empori della Solidarietà foi idealizada pela Caritas da Diocese de Roma cerca de uma década atrás e rapidamente se espalhou por outras dioceses italianas como resposta ao crescimento da pobreza alimentar e à necessidade de respostas sustentáveis e mais humanas ao problema.

Na Diocese de Milão, o primeiro desses espaços abriu as portas em março de 2015, em Cesano Boscone e Varese. Desde então, a rede foi ampliada e, até final de 2025, já existem múltiplos Empori funcionando tanto na cidade de Milão quanto em municípios do entorno, com planos contínuos de expansão.

Mais recentemente, foram inaugurados novos Empori em bairros como Barona — projetado especificamente para famílias com crianças e financiado por programas de combate à pobreza infantil — e Lambrate, reforçando a presença deste modelo em diferentes zonas da cidade. Esses projetos contam com o apoio de organizações filantrópicas e cooperação com entidades públicas e privadas.

Como funciona o “supermercado solidário”

O diferencial mais visível dos Empori è o seu funcionamento: mais do que doar alimentos, o projeto permite que as famílias façam a própria “compra” em um ambiente semelhante a um supermercado tradicional. Quem utiliza o serviço recebe um cartão de pontos, cuja carga é calibrada com base nas necessidades do núcleo familiar — considerando fatores como número de pessoas, idade, situação socioeconômica e vulnerabilidade.

Com esse cartão, as famílias podem escolher entre uma ampla gama de produtos – de gêneros alimentícios até itens para higiene pessoal e doméstica – e retirar o que realmente precisam, dentro do limite de pontos disponível. Essa escolha não é apenas prática, mas simbólica: resgata a autonomia e o protagonismo daqueles que, de outra forma, se veriam limitados à simples recepção passiva de ajuda.

Além disso, o monitoramento por equipes sociais garante que a utilização do serviço seja responsável e coerente com os princípios do projeto.

Por que o projeto existe: enfrentar a pobreza

A existência dos Empori della Solidarietà se insere em um contexto de crescimento das desigualdades e da pobreza alimentar, um fenómeno que afeta cada vez mais famílias que, apesar de residirem em áreas ricas como a metropolitana milanesa, enfrentam dificuldades econômicas persistentes.

Segundo a Caritas Ambrosiana, o objetivo não é oferecer uma resposta definitiva a todas as formas de privação, mas criar um modelo de acolhimento que mantenha a dignidade da pessoa no centro, incentivando sua participação ativa e sua capacidade de superação das dificuldades.

Impacto e perspectivas

Os números de famílias atendidas, bem como a crescente colaboração com fundações e instituições públicas e privadas, apontam para um modelo que combina recursos comunitários e respeito à dignidade humana.

Projetos como esse mostram que as respostas à pobreza podem ser eficazes não apenas quando garantem comida, mas quando fortalecem o indivíduo e a família como agentes ativos de suas próprias histórias, construindo solidariedade sem abrir mão da autonomia pessoal.

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