
Está aberta oficialmente aberta a 25ª edição dos Jogos Olímpicos de Inverno, sediada por Milão, capital financeira e do estilo na Itália, e Cortina d’Ampezzo, um dos vilarejos alpinos mais concorridos da Europa, além de uma série de localidades distribuídas pelo montanhoso norte do país.
A cerimônia teve como palco principal o lendário estádio San Siro, que reuniu 67 mil pessoas para um espetáculo que exaltou a harmonia e alguns dos principais símbolos do “Belpaese” na arte, na moda e na música.
Trata-se do maior público da história em festas de abertura das Olimpíadas de Inverno.
A cerimônia teve direção criativa de Marco Balich e começou pontualmente às 16h (horário de Brasília), com um tributo à beleza da arte clássica, representada por reproduções de esculturas de Antonio Canova (1757-1822), expoente máximo do neoclassicismo. A homenagem foi feita por bailarinos do Teatro alla Scala, casa de óperas mais famosa de Milão e da Itália.
Em seguida, foi a vez de homenagear os compositores Gioachino Rossini (1792-1868), Giuseppe Verdi (1813-1901) e Giacomo Puccini (1858-1924), ao mesmo tempo em que uma maestra interpretada por Matilda De Angelis era cercada por paparazzi, termo que surgiu na Itália e hoje é usado no mundo todo para designar fotógrafos de celebridades.
O gramado do San Siro, que costuma receber craques do futebol italiano e europeu, se transformou em uma passarela, com modelos vestidas nas cores da bandeira italiana para prestar homenagem a outro ícone do “made in Italy”, a moda, que perdeu dois de seus maiores símbolos nos últimos meses: Giorgio Armani e Valentino Garavani. Armani, aliás, também foi lembrado na cerimônia, com top models desfilando algumas de suas criações, capitaneadas por Vittoria Ceretti, namorada do ator Leonardo DiCaprio.
A interpretação do emotivo hino italiano coube a uma velha conhecida dos brasileiros, Laura Pausini, que levantou o público com sua voz aguda e potente. Na sequência, Pierfrancesco Favino, um dos atores mais populares do país, foi ovacionado pelos espectadores ao recitar o poema “L’Infinito”, de Giacomo Leopardi.
A cerimônia teve um fio narrativo que uniu cidade e montanha, resultado das primeiras Olimpíadas “disseminadas” na história, cujas competições se distribuirão por sete cidades de três regiões italianas: Bormio, Livigno e Milão (Lombardia), Cortina d’Ampezzo (Vêneto) e Anterselva, Predazzo e Tesero (Trentino-Alto Ádige).
Delegações
Com roupas de inverno e ao som de música eletrônica, as delegações nacionais desfilaram não apenas no San Siro, mas também nas diferentes sedes dos Jogos, para evitar que os atletas tivessem de se deslocar dos locais de montanha para Milão. Ao todo, 94 países mandaram equipes para as Olimpíadas, incluindo nações tropicais e desérticas que nunca viram neve natural, como Benin, Emirados Árabes Unidos, Guiné-Bissau e Haiti.
No time brasileiro, o papel de porta-bandeira coube ao esquiador alpino Lucas Pinheiro Braathen, em Milão, e à piloto de skeleton Nicole Silveira, que comandou uma dança na neve de Cortina, com direito a cambalhota do snowboarder Pat Burgener.
Braathen, que antes competia pela Noruega, é esperança real de primeira medalha do Brasil na história dos Jogos de Inverno, enquanto Silveira também sonha com um pódio olímpico.
Outro momento aguardado era a entrada da pequena delegação de Israel devido ao temor de vaias por parte do público, reflexo da guerra na Faixa de Gaza, mas as manifestações negativas foram minoritárias nas arquibancadas do San Siro. Os atletas dos Estados Unidos foram aplaudidos, porém o vice-presidente JD Vance, enquadrado pelas câmeras da transmissão na tribuna de honra, foi intensamente vaiado.
Após a ópera, a cerimônia destacou a música italiana do século 20, como Raffaella Carrà e sua inesquecível “A far l’amore comincia tu” e “Nel blu dipinto di blu”, clássico de Domenico Modugno reinterpretado pela diva Mariah Carey, que usava um vestido desenhado pelo estilista italiano Fausto Puglisi.
Já a delegação da Ucrânia foi ovacionada, talvez menos apenas que a da anfitriã Itália, que encerrou o desfile das delegações com muita festa, tanto na cidade quanto na montanha.
Porta-bandeira do time italiano, a esquiadora Federica Brignone, esperança de medalha azzurra e que voltou a competir recentemente, após sofrer uma grave fratura, entrou na cerimônia em Cortina d’Ampezzo carregada nos ombros do jogador de curling Amos Mosaner.
A parte cômica coube à atriz Brenda Lodigiani, que, simulando que estava sem som em seus microfones, deu uma pequena aula dos gestos tão usados pelos italianos, tema que tem movimentado as redes sociais de atletas olímpicos nos últimos dias. “Bem-vindos à Itália”, disse ela após a apresentação.
Discursos
Na parte final do evento, o presidente do comitê organizador dos Jogos, Giovanni Malagò, exaltou a “beleza italiana” e disse que o país está pronto para “fazer história mais uma vez, inspirado pelos valores que nos unem: excelência, amizade e respeito”. “Em um mundo dividido por conflitos, a presença de vocês aqui mostra que outro mundo é possível, um mundo de união, respeito e harmonia”, declarou o cartola.
Já a presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), a ex-nadadora Kirsty Coventry, afirmou que os atletas mostrarão, ao longo das próximas duas semanas, “o que realmente significa ser humano”. “Vocês vão nos mostrar que a força não tem a ver apenas com vencer, tem a ver com coragem, empatia e coração. Através de vocês, nós vemos o melhor de cada um de nós”, disse a dirigente.
Em seguida, o presidente da República Italiana, Sergio Mattarella, repetiu a fórmula já tradicional da festa de abertura e declarou inauguradas as “celebrações dos Jogos Olímpicos de Inverno”, com direito a uma pequena gafe, ao confundir a 15ª edição com a 25ª.
Ao som da voz do tenor Andrea Bocelli, que entoou a clássica “Nessun Dorma”, a tocha olímpica atravessou o San Siro carregada por ícones do esporte italiano. Na sequência, o rapper italiano Ghali declamou uma poesia de Gianni Rodari contra a guerra, em italiano, inglês e francês, em mais um apelo por paz dos Jogos Olímpicos. “Nós queremos paz, paz”, insistiu uma voz na parte final do espetáculo, enquanto a atriz sul-africana Charlize Theron enviou uma mensagem inspirada no Nobel da Paz Nelson Mandela.
Oito atletas e personalidades que simbolizam “princípios de paz, união e solidariedade” carregaram a bandeira olímpica no San Siro, incluindo a ginasta Rebeca Andrade, maior nome do Brasil na história das Olimpíadas.
A cerimônia foi encerrada com o acendimento das piras olímpicas em Milão, no Arco da Paz, pelos ex-esquiadores Deborah Compagnoni e Alberto Tomba, e em Cortina, pela esquiadora Sofia Goggia, em meio a fogos de artifício que evidenciaram ao mundo um dos pontos fortes da Itália: a beleza.
As piras têm um design que remete ao Sol e à genialidade de Leonardo da Vinci, através de seus célebres “nós”, intersecções geométricas que simbolizam a harmonia entre natureza e engenhosidade humana, pensadas também para recriar a ligação com Milão, cidade conhecida pela criatividade e inovação.
A tocha olímpica atravessou todas as 20 regiões e 110 províncias da Itália, bem como todos os sítios tombados pela Unesco como patrimônios da humanidade no país.



