
A construção de um edifício ultramoderno em formato de cubo preto em pleno centro histórico de Florença, área tombada pela Unesco como patrimônio mundial da humanidade, provocou polêmica na Itália e se tornou até alvo de investigação por ter maculado o panorama da capital do Renascimento, dominado por prédios multicentenários em tons pastel e colinas verdejantes.
O edifício pertence às gestoras de ativos imobiliários Hines e Blue Noble e foi levantado no lugar do antigo Teatro Municipal de Florença, que foi desocupado e vendido pela Prefeitura em 2013, na gestão do então prefeito e futuro premiê Matteo Renzi.
O terreno havia sido comprado pela Cassa Depositi e Prestiti (CDP), banco de investimentos do governo italiano, por 23 milhões de euros, e, após três leilões sem sucesso, acabou repassado em 2019 aos atuais proprietários.
O polêmico edifício integra um complexo de prédios com mais de 150 apartamentos de luxo que, a partir de outubro, serão destinados sobretudo a aluguéis turísticos de curta duração, atividade que há anos vem provocando o aumento dos preços de moradia e o descontentamento da população florentina.
“Não gosto desse projeto por nada, sobretudo pelas escolhas cromáticas e de materiais. O resultado final é ainda pior. Se dependesse de mim, jamais teria sido aprovado. Mas o ponto é esse: um prefeito não tem poder de escolher os arquitetos ou de estabelecer a estética de um projeto”, disse o ex-prefeito Dario Nardella, que governava a cidade quando o projeto foi autorizado.
Segundo ele, a responsabilidade é da Superintendência de Paisagismo do município. O caso motivou a abertura de uma investigação pelo Ministério Público de Florença, que vai apurar se houve eventuais violações das normas de construção e urbanísticas no centro histórico.
O objetivo é determinar se os responsáveis pelo projeto construíram em altura acima do permitido ou fizeram alterações na versão aprovada pelas autoridades.
“Precisamos entender como foi possível se chegar a esse pesadelo que ofende a cidade e saber como foram dadas as autorizações”, afirmou o Comitê Salvemos Florença, um dos grupos mais ativos contra o turismo de massa na cidade.
Já o Ministério da Cultura manifestou a intenção de verificar os procedimentos de autorização do edifício e pediu um relatório detalhado sobre o caso.
“Não queremos que Florença perca o status Unesco”, declarou Eike Schmidt, ex-candidato a prefeito da capital toscana e ex-diretor das Gallerie degli Uffizi, principal museu renascentista do mundo. “A Unesco poderia fazer pressão sobre a cidade para mudar as cores e reduzir a altura [do prédio]”, acrescentou.