A investigação sobre um suposto braço da máfia italiana ‘Ndrangheta no Ceará voltou ao noticiário nesta semana, mas a novidade não é uma nova operação policial nem a descoberta de novos fatos. O que reacendeu o caso foi o avanço da ação penal na Justiça Federal, que passa a analisar a denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) contra oito acusados – quatro italianos e quatro brasileiros – por organização criminosa, lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro e a ordem tributária.
O caso ganhou projeção nacional após reportagens da imprensa brasileira destacarem o andamento do processo. No entanto, a investigação é conhecida desde 2024, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Calábria, em cooperação com a Interpol, para apurar a atuação de um grupo suspeito de lavar dinheiro no Brasil em benefício da ‘Ndrangheta, considerada uma das mais poderosas organizações mafiosas do mundo.
Segundo o MPF, o esquema teria operado principalmente entre 2011 e 2013, utilizando empresas registradas no Ceará, como pousadas, restaurantes e outras pessoas jurídicas, para ocultar e dar aparência de legalidade a recursos de origem ilícita. A denúncia afirma que o grupo possuía estrutura transnacional e movimentava patrimônio por meio dessas empresas.
Um dos pontos que mais chamou atenção foi a citação de um empresário italiano que, segundo os autos, manteve vínculo com o vice-consulado honorário da Itália em Fortaleza. Esse detalhe levou alguns títulos a sugerirem uma ligação entre o esquema e a representação diplomática italiana. Entretanto, até o momento, não há acusação contra o Consulado da Itália nem contra o governo italiano. A investigação refere-se à atuação atribuída a uma pessoa que teria exercido funções ligadas ao vice-consulado no passado, e não à instituição.
A repercussão do caso também foi maior no Brasil do que na Itália. Até agora, os principais jornais italianos não deram destaque ao avanço do processo. A cobertura ficou concentrada em veículos brasileiros, especialmente o Diário do Nordeste, que teve acesso aos autos da investigação e publicou as reportagens mais detalhadas, posteriormente repercutidas por outros meios nacionais.
Na prática, portanto, o que mudou agora é a fase processual. Depois da investigação conduzida pela Polícia Federal e da denúncia oferecida pelo MPF, a Justiça Federal deu prosseguimento à ação penal, permitindo que o processo avance para a análise das acusações e das defesas dos investigados.
O caso segue em tramitação e ainda não há condenações. Cabe à Justiça decidir, ao final do processo, se as acusações apresentadas pelo Ministério Público serão ou não confirmadas.




