A cerca de 20 quilômetros do centro de Roma, na fronteira entre a capital e Frascati, existe um complexo da Banca d’Italia que quase ninguém conhece – nem mesmo a maioria dos italianos. Chama-se Centro Donato Menichella, tem 140 mil metros quadrados, emprega duas mil pessoas e é, hoje, o coração técnico de um dos projetos mais ambiciosos da União Europeia: o euro digital. A fase piloto deve acontecer em meados de 2027 e sua entrada em vigor está prevista para 2029,
Segundo reportagem publicada pelo jornal Il Post, trata-se de um complexo quase labiríntico – uma dúzia de prédios de cinco andares ligados por corredores tão longos que até funcionários se perdem. Inaugurado em 1999 e batizado em homenagem a Donato Menichella, governador do Banco da Itália entre 1948 e 1960, o centro foi erguido numa área originalmente pensada, nos anos 1960, para abrigar um novo polo administrativo do Estado italiano. O plano, no entanto, jamais saiu do papel. A Banca d’Italia aproveitou o terreno porque a sede histórica, o Palazzo Koch, na via Nazionale, não tinha espaço técnico para um centro de dados.
Peso da Itália no euro digital
É ali que a Itália joga um papel de peso desproporcional no projeto do euro digital, iniciativa do Banco Central Europeu para criar uma moeda digital que complemente – e não substitua – o dinheiro em espécie. O Banco da Itália integra o grupo de seis bancos centrais responsáveis pelo desenvolvimento técnico, ao lado de França, Alemanha, Espanha, Áustria e Lituânia.
Formalmente é uma colaboração entre pares, mas a contribuição italiana pesa mais por um motivo concreto: foi no Centro Donato Menichella que nasceu o TIPS, sistema de transferências instantâneas hoje replicado até fora da zona do euro, em países como Noruega e Suécia. Todos os pagamentos instantâneos em euros passam pelos servidores de Frascati – tarefa dividida apenas com o Bundesbank alemão.
Por trás do projeto estão cerca de 80 profissionais, quase todos baseados no centro: engenheiros, cientistas da computação, economistas e estatísticos, com idade média de 40 anos – abaixo da média geral do órgão. À frente da força-tarefa do euro digital no BCE está justamente um italiano, Piero Cipollone, dirigente histórico do Banco da Itália.
Curiosamente, o próprio Il Post nota que essa vantagem italiana também nasce de um paradoxo econômico do país: salários baixos e mercado de trabalho instável no setor privado transformaram o Banco da Itália num empregador de prestígio, capaz de atrair de volta talentos formados nas melhores universidades do mundo – algo que bancos centrais de outros países europeus, com setores privados mais competitivos, têm mais dificuldade de fazer.




