Don Massimo Biancalani, o “padre dos migrantes” de Pistoia, na Toscana, teve confirmada pelo Vaticano sua remoção das paróquias de Santa Maria Maggiore, em Vicofaro, e San Niccolò, em Ramini. Aqui vale explicar: no direito canônico, remoção não é punição, suspensão nem expulsão da Igreja – ele não foi excomungado, continua sendo padre e pode celebrar missa e os sacramentos normalmente.
O que ele perdeu foi o cargo de pároco, isto é, o responsável administrativo e pastoral daquelas duas paróquias específicas. A decisão do Dicastério para o Clero, divulgada em 19 de agosto, encerra um processo canônico que durou mais de um ano, e a justificativa oficial foi de “oportunidade pastoral”: segundo o Vaticano, ele teria negligenciado a pastoral ordinária das comunidades, transformando as paróquias quase exclusivamente em centros de acolhida. Não houve, no entanto, nenhuma acusação de crime, pecado ou má conduta.
Como tudo começou
Desde 2015, Biancalani transformou a paróquia de Vicofaro em um centro de acolhida a migrantes, chegando a abrigar cerca de 200 pessoas na própria igreja e na casa paroquial – muitos em situação irregular no país, o que rendeu a ele o apelido hostil de “prete dei clandestini” entre críticos.
A iniciativa gerou anos de tensão com moradores e paroquianos, reclamações sobre condições sanitárias e queda na participação da comunidade nas atividades religiosas. Em julho de 2025, a polícia de choque desocupou os migrantes abrigados em Vicofaro. No mês seguinte, o então bispo de Pistoia, dom Fausto Tardelli, retirou de Biancalani a representação legal da paróquia e propôs transferi-lo para a direção do Escritório Missionário da Diocese, cargo que, na prática, o afastaria da acolhida direta. O padre recusou.
Os dois recursos e a decisão do Vaticano
Diante da recusa, Biancalani apresentou dois recursos à Santa Sé: um contra a perda da representação legal de Vicofaro, outro contra a tentativa de redirecioná-lo ao Escritório Missionário. O Dicastério para o Clero rejeitou ambos, confirmando as decisões do bispo.
A decisão não é o fim absoluto do caminho canônico. Biancalani ainda tem 60 dias para recorrer a uma última instância: o Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, uma espécie de “Corte de Cassação” da Igreja – o terceiro e último grau de julgamento possível. Ele avalia se vai recorrer.
Em entrevistas, ele disse lamentar a decisão, mas afirmou que pretende continuar ajudando migrantes de alguma forma, mesmo fora das duas paróquias. Também rebateu críticas do vice-premiê Matteo Salvini, que comemorou a remoção nas redes sociais, dizendo que o político deveria “cuidar dos transportes” em vez de comentar assuntos que não lhe dizem respeito.




