Esqueça o glamour cinematográfico da siciliana Cosa Nostra ou as guerras urbanas da napolitana Camorra. A organização criminosa mais poderosa, rica e perigosa da atualidade atende pelo nome de Ndrangheta. Originária da Calábria, no extremo sul da Itália, essa estrutura mafiosa deixou de ser uma facção rural para se transformar em uma holding transnacional bilionária. Estima-se que seu faturamento anual ultrapasse os 40 bilhões de euros (mais de R$ 240 bilhões), cifra impulsionada por um monopólio quase absoluto: o controle de cerca de 80% da cocaína que abastece a Europa.
Para sustentar esse império global, a Ndrangheta depende de pontes logísticas sólidas do outro lado do Atlântico. E é nessa estratégia de expansão que o Brasil assume um papel central, tendo o Porto de Santos (SP) como o seu principal canal de escoamento. O peso dessa engrenagem oculta ficou evidente em 2 de junho, quando uma forte ofensiva do Estado brasileiro atingiu diretamente o núcleo de apoio logístico dessas máfias internacionais no litoral paulista.
A Engrenagem em Santos
A Ndrangheta opera no mercado global de drogas como uma espécie de “corretora de grandes volumes”. Ela possui contratos de confiança firmados com produtores de cocaína nos países andinos, mas não se envolve diretamente no varejo urbano sul-americano. O gargalo da organização sempre foi o transporte. A solução foi infiltrar-se no fluxo legal do comércio marítimo do Porto de Santos, o maior complexo portuário da América Latina.
Aproveitando o tráfego diário de milhares de contêineres destinados a portos europeus cruciais – caso de Gioia Tauro na Itália, Antuérpia na Bélgica e Roterdã nos Países Baixos -, a máfia italiana passou a recrutar redes locais no Brasil. Esses operadores funcionam como prestadores de serviços logísticos de alta especialização: realizam desde a clonagem de lacres de exportações legítimas até a ocultação de drogas em fundos falsos ou compartimentos subaquáticos de navios cargueiros.
Operação Narco Sky
A resposta das autoridades a essa infiltração internacional culminou na deflagração da Operação Narco Sky pela Polícia Federal, em 2 de junho. Fruto de um desdobramento da Operação Narco Vela, a ação mirou especificamente a estrutura especializada em blindar e viabilizar o transporte marítimo de grandes remessas de entorpecentes para os continentes europeu e africano.
Decretada pela 5ª Vara Federal de Santos, a operação mobilizou dezenas de policiais para cumprir 10 mandados de prisão preventiva e 3 de busca e apreensão, estendendo-se por São Paulo, Rio Grande do Sul e Pará. Mais do que as prisões, o grande impacto foi a asfixia financeira do grupo: a Justiça Federal determinou o bloqueio e o sequestro de mais de R$ 631 milhões em bens, valores e criptoativos. O uso de moedas digitais vinha sendo uma ferramenta indispensável para os clãs calabreses pagarem seus braços logísticos no Brasil sem acionar os alertas do sistema bancário tradicional.
As investigações contaram com um forte componente de cooperação jurídica internacional. As provas técnicas foram robustecidas pelo compartilhamento de dados telemáticos interceptados por autoridades francesas nos servidores da plataforma SKY ECC, aplicativo de comunicação criptografada avançada que os mafiosos e seus aliados acreditavam ser inviolável.
O cruzamento de dados revelou que a organização foi responsável pelo planejamento do transporte de pelo menos 2,3 toneladas de cocaína interceptadas em portos da Espanha, Itália, Holanda e do próprio Brasil.
A operação de junho reafirma que o combate à Ndrangheta deixou de ser um problema exclusivo de segurança interna da Itália. Diante de uma multinacional do crime que opera em mais de 80 países e movimenta cifras equivalentes ao PIB de pequenas nações, blindar a soberania e a inteligência do Porto de Santos tornou-se um desafio estratégico para o Brasil perante a segurança global.




