
Isso até que a bela, jovem e misteriosa André cruzar suas vidas. “Ela é especialmente bonita, e sem querer. Tem um quê de masculino. Uma dureza. Isso facilita as coisas para nós – somos católicos: a beleza é uma virtude moral e não tem nada a ver com o corpo.”
Mais do que uma paixão juvenil que parece envolver os quatro amigos ao mesmo tempo, e na mesma intensidade, André é a personificação do oposto. Seduzidos por ela, os garotos se vêem envolvidos numa série de episódios que mudará seus rumos para sempre, separando suas vidas de maneira trágica. O texto que começa na primeira pessoa do plural, como se o grupo fosse uma mesma pessoa, passa à primeira do singular – numa interessante transição narrativa à maturidade.
A prosa literária de Baricco é primorosa, e justifica o lugar do autor entre os mais vendidos da Itália e um dos mais traduzidos entre os italianos contemporâneos. Baricco, que no Brasil já esteve na lista dos best seller com Seda (também Companhia das Letras), traça sua teia narrativa de forma a espelhar naquela paixão juvenil o antigo embate entre fé e descrença.
Os protagonistas da história acreditam, mas não deixam de duvidar. São inconformados, mas obedientes. Seguem o caminho óbvio que lhes é apresentado, mas não deixam de acreditar em outra realidade. “É claro que vamos para a escola, todos os dias. Mas essa é uma história de degradação aviltante e de humilhações inúteis. Não tem nada a ver com aquilo que queremos chamar de ‘vida’.”
André é para aqueles garotos a materialização do proibido e do inalcançável. Até mesmo a tragédia que parece naturalmente cercar sua vida é para o grupo uma prova de distanciamento de suas vidas pacatas, marcadas pela temperança, pelo equilíbrio, pelo meio termo.
“Herdamos a incapacidade para a tragédia e a predestinação para a forma menor do drama: porque nas nossas casas não se aceita a realidade do mal, e isso adia ao infinito qualquer desdobramento trágico, deflagrando a longa onda de um drama comedido e permanente – o pântano em que crescemos.”




